sexta-feira, março 05, 2010

Passagem

É comparação besta dizer que o remo assemelha bisturi furando a água, fatiando o lago, tirando naquinho da pele dele, espirrando espuma qual fosse sangue, que a chapa dele não é assim tão precisa e nem o gesto delicado, nem tem encurvadura tal, apesar da destreza ser médica e, na sua função, precisa. Mas assim é a gente tentando comparar tudo com tudo, pra num achar igual acochambrar o entendimento, aprimorar o saber da coisa que vez em quando faz a gente desperceber.

Bruma nevada, espessa, grossa de respirar, faz arfar quem nela singra um tossir asmático, febril, dificultoso. E que dá solidão também, porque ladear alguém é diferente de ter companhia, de estar junto, coeso, encostar porque a distância amedronta não é um aproximar de autenticidade, de ser amigo. Mas é assim, essa viagem gasosa. Nela se aproveita o puxão da remada pra roçar o outro e fingir naquela frestinha de tempo que não se é sozinho rumando prum sei onde que não quero nem dizer pra menor pensar.

Mas nem só o silêncio é lâmina.

Tem um ruído que só no breu do som se escuta, quando a gente chega a pensar que é surdo ou ficou preso entre um segundo e outro, tanto é o estrondo do não acontecer. Daria, nesse instante, pra ouvir o barulho do osso crescendo, do raio do sol fagulhando lá no lado de lá do mundo, da teia saindo da entranha da aranha cuidadosa pra não espantar a mosca. Esse barulho que a gente não sabia que existia não é bater de queixo nem de pele de repente arrepiosa nem de esbugalhar nem nada, porque não é conseqüência, mas motivo: é barulho de medo. Do meu e dos outros que estão ali, menos um, o remador, que ou ensinou o corpo a disfarçar ou desacostumou de sentir.

E burlando o ar que rarefesce, pela água que transmigra, quase solidifica, cato daqui artimanhas daí que pra cá me trouxeram. Vivo, dos outros, memórias anônimas que enalteço e lamento, como quem vê no matagal do vizinho grama, distraindo o enfado às custas da saliva alheia. A diferença é que se, antes, o que eu diminuía era a longuidão do caminho, agora do mesmo artifício uso pra distrair o milímetro ou dois que por pouco não me resta pro fim.

4 comentários:

Fernanda Azevedo disse...

Oi, Marcos. Que bom saber do seu blog! Olha, eu li e me senti ali do lado de alguém que rema. Gostei da sua linguagem, de verdade. E eu só preciso gostar, mesmo, não interessa se é fácil ou difícil. Gostei!!

Vou recomendar seu blog.

Beijos.

Ushas disse...

Saudades de remar. Não sei se diferente ou igual encontrava paz nesse contato do remo com água, sentia suave depois q os músculos e o cérebro se acostumam com o movimento compassado.
E nesse ritmo a plenitude de se ouvir o tudo e o nada.

silvia pilz disse...

frase genial: 'é a gente tentando comparar tudo com tudo'. essa busca, esse quebra-cabeças, esse 'explicar' o que não se explica é o que me move. aliás, acho que é que nos mantém aqui, fingindo não perceber que estamos bem perto do fim. seus textos me fazem pensar em abismos que só os olhos de um poeta podem ver.

Valeria Barros disse...

Lindo!